janeiro 17, 2019

Vitória Paiva | Desenho A | 12° F | Ilustração Tridimensional

Álvaro de Campos

TRAPO
O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, estava bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Antecipação? Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.
Bem sei: a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efectivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.
Carinhos? Afectos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.
Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...
O dia deu em chuvoso.



janeiro 16, 2019

Francisca Chonlong 12º F- Ilustração tridimencional


Ilustração tridimencional

Não sei quantas almas tenho.

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?» 
Deus sabe, porque o escreveu.         
                            





janeiro 15, 2019

Rita Costa Medeiros |12ºF | Desenho A | Ilustração Tridimensional



Não Digas Nada!

Não digas nada! 
Nem mesmo a verdade 
Há tanta suavidade em nada se dizer 
E tudo se entender — 
Tudo metade 
De sentir e de ver... 
Não digas nada 
Deixa esquecer 

Talvez que amanhã 
Em outra paisagem 
Digas que foi vã 
Toda essa viagem 
Até onde quis 
Ser quem me agrada... 
Mas ali fui feliz 
Não digas nada. 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 




janeiro 14, 2019

Mariana Leite 12ºF | Desenho A | Ilustração Tridimensional




 

Poema: ANIVERSÁRIO, Álvaro de Campos


janeiro 13, 2019

Joana Franco | Ilustração em três dimensões

No início deste trabalho de aula a professora Alexandra pediu-nos que trouxesse-mos um recipiente de vidro e um poema de Fernando Pessoa (ortónimo ou heterónimo). 

Decidi trazer um frasco de vidro alto que tinha em casa, à espera de ser usado e o seguinte poema de Alberto Caeiro (o heterónimo de Fernando Pessoa):

"Eu não Quero o Presente, Quero a Realidade

Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
                         como cousas.

Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma."

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"









Beatriz Medina | Ilustração tridimensional | 12F

Quem me Dera que Eu Fosse o Pó da Estrada

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada 
E que os pés dos pobres me estivessem pisando... 
Quem me dera que eu fosse os rios que correm 
E que as lavadeiras estivessem à minha beira... 
Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio 
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo. . . 
Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro 
E que ele me batesse e me estimasse... 
Antes isso que ser o que atravessa a vida 
Olhando para trás de si e tendo pena 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XVIII" 






Beatriz Medina 12ºF

janeiro 12, 2019

Maria Helena Viveiros | 12º F | Ilustração tridimensional


Presságio

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesses ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...


                                                Fernando Pessoa



Ilustração do poema











janeiro 11, 2019

MARGARIDA RODRIGUES\ ilustração a 3 dimensões de poesia

O Andaime

O tempo que eu hei sonhado 

Quantos anos foi de vida! 
Ah, quanto do meu passado 
Foi só a vida mentida 
De um futuro imaginado! 

Aqui à beira do rio 
Sossego sem ter razão. 
Este seu correr vazio 
Figura, anônimo e frio, 
A vida vivida em vão. 

A ‘sp’rança que pouco alcança! 
Que desejo vale o ensejo? 
E uma bola de criança 
Sobre mais que minha ‘s’prança, 
Rola mais que o meu desejo. 

Ondas do rio, tão leves 
Que não sois ondas sequer, 
Horas, dias, anos, breves 
Passam — verduras ou neves 
Que o mesmo sol faz morrer. 

Gastei tudo que não tinha. 
Sou mais velho do que sou. 
A ilusão, que me mantinha, 
Só no palco era rainha: 
Despiu-se, e o reino acabou. 

Leve som das águas lentas, 
Gulosas da margem ida, 
Que lembranças sonolentas 
De esperanças nevoentas! 
Que sonhos o sonho e a vida! 

Que fiz de mim? Encontrei-me 
Quando estava já perdido. 
Impaciente deixei-me 
Como a um louco que teime 
No que lhe foi desmentido. 

Som morto das águas mansas 
Que correm por ter que ser, 
Leva não só lembranças — 
Mortas, porque hão de morrer. 

Sou já o morto futuro. 
Só um sonho me liga a mim — 
O sonho atrasado e obscuro 
Do que eu devera ser — muro 
Do meu deserto jardim. 

Ondas passadas, levai-me 
Para o alvido do mar! 
Ao que não serei legai-me, 
Que cerquei com um andaime 
A casa por fabricar. 

Fernando Pessoa











Márcia Câmara | 12F



Ilustração Tridimensional

Nesta semana foi proposto fazer uma ilustração tridimensional de um poema.

O poema elegido por mim foi o seguinte:


Durmo ou não? Passam juntas em minha alma

Durmo ou não? Passam juntas em minha alma
Coisas da alma e da vida em confusão,
Nesta mistura atribulada e calma
Em que não sei se durmo ou não.
Sou dois seres e duas consciências
Como dois homens indo braço-dado.
Sonolento revolvo omnisciências,
Turbulentamente estagnado.
Mas, lento, vago, emerjo de meu dois.
Desperto. Enfim: sou um, na realidade.
Espreguiço-me. Estou bem... Porquê depois,
De quê, esta vaga saudade?

Fernando Pessoa 



   Ilustração:







MANUEL PAIVA | 12F | ILUSTRAÇÃO DE 3 DIMENSÕES




Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta. 

Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas. 
Renque e o plural árvores não são cousas, são nomes. 
Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem, 
Que traçam linhas de cousa a cousa, 
Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente 
reais, 
E desenham paralelos de latitude e longitude 
Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do 
que isso! 



Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos - Poema XLV”